O contrato social se firma entre o indivíduo e a cultura—os pais, o estado, o capital—e a partir dele temos deveres a cumprir na promessa de que sejamos recompensados. Adiamos o prazer imediato, de ações como um ato sexual consumado naturalmente em público, segurar o cocô até o banheiro mais próximo ou mesmo matar quem nos faz concorrência. Isso para termos a especialização, a ciência, o sistema de esgotos e a internet. Em resumo, precisamos de repressão para se viver em sociedade, já explicava Freud em O mal-estar na civilização.
(Um pequeno parêntese se faz necessário: não é toda e qualquer repressão, é a mínima para que não se viva somente pelos instintos. O resto é ideologia, é mais-repressão etc.—escolham o teórico de sua preferência para uma visão mais ampla sobre isso.)
No entanto, a promessa nem sempre é cumprida. A internet cai, o ônibus atrasa, a exploração se disfarça em termos do corporativês, surge o trabalho escravo, alguém morre de fome.
É para isso que existe tudo aquilo que nos distrai: a catarse de um hobby, a autoajuda, a promessa de mudança de vida. Trata-se de uma ferramenta de defesa, uma tentativa da pessoa de viver uma vida sem sofrimento e de se proteger da angústia.
Só que tudo aquilo que é reprimido se acumula e uma hora retorna: é o rancor.
O rancor é a reação que temos ao ter conhecimento consciente ou inconsciente de que o adiamento do prazer está em um prazo a perder de vista. A promessa não será consumada, o édipo social não será resolvido. Uma reação natural, um lembrete carregado de ressentimento de algo ruim que aconteceu. Rancere, em latim, é “feder”. É o vestígio de algo podre, de algo que não nos aparenta saudável. É a memória da injustiça, da repressão não ressarcida.
A violência urbana pode ser vista pelo viés do rancor, como uma manifestação que deixa a pessoa mais próxima ao princípio do prazer. A sociedade não me dá meios para viver em sociedade? Então eu tento levar vantagem, eu dou um jeitinho, eu roubo. E vou além: mato, porque a lei não vale de nada. O outro é o símbolo disso, respinga nele também. Se a promessa não foi cumprida, agora se pagará em outra moeda, como um agiota inescrupuloso que corta um dedo mindinho do devedor: “se eu não ganho, pelo menos você perde”.
O que não deixa de ser um senso de justiça.
Mas, nem sempre, o ímpeto de justiça vem violento. O rancor pode ser refletido e suas origens entendidas. É o rancor que traz o pensamento revolucionário, que traz o estopim da mudança. O protesto é o rancor canalizado coletivamente, em prol de uma exigência em comum, de transporte gratuito a redução do preço da gasolina.
A questão é que o rancor é unânime, porém seu nome varia. Daí a discordância constante de como se deve protestar, lutar, fazer (ou não) a revolução. Isso vai da história, conhecimento da sociedade e—o que me parece impossível negar—da classe socioeconômica de cada um.
Ocorre que a canalização de forma consciente do rancor não parece ser variável discreta, mas contínua. Nem fator único e isolado. Misturando tudo o que falei aqui, surgem diversos indivíduos possíveis. Uma pessoa que não se revolta com a sociedade pois suas defesas contra o rancor são bastante fortes, mas acaba se revoltando contra um mínimo de privilégio que lhe é retirado. Outra que é considerada privilegiada, mas a culpa lhe faz ir às ruas. Ou ainda, alguém que rouba para sustentar algum grupo esquecido pelo resto da sociedade. A justiça da lei não dá conta das minúcias da sociedade e do indivíduo.
Cabe então a todos, pelo menos a meu ver, entender que o rancor é geral, mas suas formas de manifestação e ocultação são diversas. Não quero aqui defender posições ou propostas de manifestos ou ações. Penso que só vendo como aquilo que atinge a todos opera no eu e no outro é que se pode chegar a uma saída em que não se desconte em quem também é vítima apenas como forma de conforto ou de satisfação de se fazer algo.
A tentativa de chegar a uma resolução do excesso de repressão e de promessas não cumpridas é difícil, penosa e lenta. E penso que somente com reflexão, crítica e esse olhar sobre o outro é que não se cometerá novas injustiças sob a justificativa de se sanar a injustiça inicial.